Uso de carro como meio de transporte deve cair 28% em SP na próxima década, diz consultoria

O uso de carro como meio de transporte em São Paulo deve cair 28% nos próximos dez anos. É o que prevê um estudo feito pela consultoria Kantar, que analisou o futuro da mobilidade urbana em 31 cidades do mundo. O levantamento se baseia em entrevistas com moradores e análises de tendências feitas por especialistas.

A pesquisa mostra que São Paulo é a terceira cidade do mundo onde os moradores estão mais dispostos a mudar o uso de meios de transportes. A capital paulista fica atrás apenas de Manchester, na Inglaterra, e Moscou, na Rússia. Apesar disso, a cidade está na última posição no índice de confiança, que verifica o quanto os moradores acreditam que essa mudança deve de fato ocorrer.
Segundo o estudo, até 2030, o uso de bicicletas deve aumentar 47% na capital, contra um aumento de 10% no uso de transporte público e 25% nas caminhadas como modo de deslocamento. O valor é acima da média mundial, que prevê queda de 10% no uso do carro, aumento de 18% nas bicicletas e de 6% nas viagens a pé. Apesar disso, o aumento previsto no uso do transporte público pelo mundo é maior do que o verificado aqui: 49% é o crescimento médio mundial estimado para esse meio de transporte.

Para Rafael Calabria, coordenador de mobilidade urbana do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), a redução do uso do carro precisa ser acompanhada de investimentos mais corajosos na infraestrutura urbana.

“As pessoas querem mudar e não estão mudando, porque falta investimento em alternativas ao carro. O que mais pesa é a infraestrutura urbana: falta coragem em tirar o espaço dos carros e mudar o paradigma”, afirma Calabria, que é titular do Conselho Municipal de Transporte e Trânsito de São Paulo.

Transportes paulistanos
De acordo com um levantamento feito pela Rede Nossa São Paulo em 2018, o paulistano gasta em média três horas por dia no deslocamento. Apesar de os carros serem os principais responsáveis pelos congestionamentos, o transporte coletivo é o mais usado pela população.
Segundo a pesquisa, 47% dos moradores de São Paulo usa ônibus, 22% usa carro, 13% metrô, 8% faz deslocamentos a pé, 4% de trem e 2% com transportes particulares, como Uber. O uso de motos e bicicleta é ínfimo: apenas 1% da população opta por cada um desses modais.

Os dados são da Pesquisa de Mobilidade Urbana na Cidade, feita pelo Ibope Inteligência a pedido da Rede Nossa São Paulo.

Para desestimular o uso do carro como meio de transporte é preciso deixar de investir em novas obras viárias, o que difere da postura adotada pela maioria dos governantes, explica Rafael Calabria, do Idec.
“As obras de infraestrutura urbana não apenas atendem quem já usa, elas funcionam como estímulo. Então, quando você cria uma nova linha de Metrô, você estimula o uso desse meio, enquanto ao criar uma nova avenida ou ampliar uma via, você estimula o tráfego de carros.”

O pesquisador cita como exemplo a construção da terceira pista nas marginais, que foi entregue no início dos anos 2000 para aliviar o fluxo de carros na via.

“Quando o governo do estado criou a terceira pista, um estudo publicado mostrou que pouco depois o trânsito na região piorou, e não melhorou. Porque você, no máximo, resolve o problema de um local, mas as vias secundárias, que desembocam na marginal, continuam limitadas”, afirma. “A longo prazo, você piora na via reformada e no entorno, porque estimula mais carro.”

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