Transmissão alta e pouca vacinação indicam risco de 3ª onda neste mês

O temor de um pico de casos e mortes por covid-19 assombra o Brasil. Alguns fatores indicam uma possível terceira onda da doença neste mês: aumento da média diária de novos casos, hospitais com ocupação acima dos 80% em todo país, índices de distanciamento social baixos e poucas pessoas vacinadas.

Especialistas veem as idas e vindas de medidas de restrição social e a imunização como os principais motivos para a pandemia não perder força efetivamente por aqui. O virologista José Eduardo Levi, da USP, é enfático ao relacionar a continuidade da doença com os fatores descritos acima.

“Só é possível relaxar medidas quando temos índice vacinal alto e número de casos baixos. Como vemos na Inglaterra, nos Estados Unidos. Aqui parece sempre um oba-oba, abre e fecha, abre e fecha. Entendo as dificuldades para se manter o distanciamento, ninguém aguenta mais, a economia, enfim os gestores vão administrando desse jeito. Quando podem, abre um pouco e, em seguida, fecham de novo, mas isso faz com que o problema permaneça”, diz Levi.

A infectologista Raquel Stucchi, professora da Unicamp, ainda acrescenta que em mais de um ano da doença não houve quedas reais de casos e controle da pandemia.

“É necessário um distanciamento social de fato e uma cobertura vacinal grande. Não tivemos lockdown efetivo em nenhum momento. Na minha opinião, nem da primeira onda saímos, porque em nenhum momento os números ficaram baixíssimo. Na primeira queda, ficamos com mais de mil mortes por dia e agora com quase 2 mil, não é um controle”, diz Raquel.

Para a médica, agora é o momento de determinar restrições para não chegar à situação de calamidade vivida em março. “É a hora é fechar tudo por pelo menos 14 dias, que é o tempo que já sabemos que o vírus se desenvolve. Inclusive transporte público, e deve ser dado uma solução para que as pessoas dos serviços obrigatórios se locomovam. Assim conseguiremos controlar”, alerta.

O ministro da saúde Marcelo Queiroga admitiu, na quarta-feira (26), em audiência pública na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle, o risco de uma terceira onda de covid-19 no país. “A terceira onda é uma preocupação. Assistimos agora uma redução da tendência de queda de óbitos. Isso pode ser resultado da flexibilização das medidas de bloqueio. Quando abre, naturalmente, surgem novos casos. Se essa tendência é desmesurada, vai ter uma nova pressão ao sistema de saúde, que posteriormente se reflete em óbitos. Mas também pode ser fruto de uma variante e ainda não temos essa resposta ainda”, afirmou.

O relaxamento feito por governadores e prefeitos antes dos Dia das Mães (16/05) passou a sensação de um controle irreal do SARS-CoV-2, segundo os especialistas. “Quando as medidas são relaxadas, há um pico de casos em torno de 10 a 15 dias depois e um pico de hospitalizações em torno de 3 a 4 semanas depois. Foi assim ao longo de toda a epidemia, não tem por que ser diferente desta vez. Agora, muitas pessoas estão circulando livremente e vai ter consequência. O número de casos graves e óbitos vinha caindo e agora vai cair de forma muito lenta, se não subir. Por pelo menos mais um ou dois meses”, afirma o virologista da USP.

Ritmo da vacinação
De acordo com o Ministério da Saúde, pouco mais de 10% dos brasileiros receberam as duas doses de vacina. Para que haja imunização de rebanho, é preciso que pelo menos 70% da população esteja vacinada, acreditam médicos e pesquisadores.

“Quando falamos dos Estados Unidos, Israel e Reino Unido com mais 30% das pessoas vacinadas é possível começar com aberturas efetivas. Aqui, a eficácia das vacinas aplicadas é menor, então precisamos de mais gente vacinada. Cerca de 70, 80% para termos segurança. No ritmo que estamos é difícil dizer quando chegaremos a esse índice”, afirma Raquel.

“Não dá para falar que a vacinação faz algum efeito com apenas 10% das pessoas totalmente vacinadas. Não adianta, por enquanto, a vacinação não tem o efeito”, completa Levi.

Preocupação com vírus da Índia
A variante indiana, que já conta com oito casos confirmados no Brasil, não é apontada ainda como possível causa da terceira onda. “Temos uma variante dominante super transmissível aqui, a amazônica, e a transmissão segue alta. Ainda temos de nos preocupar com a variante brasileira”, lembra Levi.

A Índia afirmou na última semana que a nova cepa, registrada pela primeira vez em outubro de 2020, virou dominante no país. No Reino Unido, dados oficiais relatam que essa variante preocupa e já é também a principal na região.

Por isso, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e os governos estaduais e municipais recomendam medidas de restrições geográficas para evitar mais um problema no Brasil.

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