Subsídios a montadoras de veículos dividem opiniões

O anúncio do encerramento da produção de veículos da Ford no Brasil colocou em debate a concessão de bilhões de reais em incentivos tributários para a indústria automotiva. O presidente Jair Bolsonaro criticou a Ford nesta terça-feira (12) criticou a montadora e disse que a empresa queria subsídios.

“Mas o que a Ford quer? Faltou à Ford dizer a verdade: querem subsídios. Vocês querem que continuemos dando R$ 20 bilhões para eles como fizemos nos últimos anos, dinheiro de vocês, impostos de vocês, para fabricar carro aqui?”, perguntou o presidente a apoiadores. E ele mesmo respondeu na sequência: “Não. Perdeu para a concorrência, lamento.”

Dados do Ministério da Economia apontam que os incentivos tributários para os fabricantes de automóveis atingiram R$ 43,7 bilhões entre 2010 e 2020. Até 2017, os incentivos contabilizados -R$ 25,24 bilhões – correspondem à base efetiva apurada. Nos três anos seguintes – 2018, 2019 e 2020 – os dados ainda são projeções.

O levantamento leva em consideração os incentivos para todas as empresas do setor, já que os dados individuais são sigilosos. Além dos incentivos dos tributos federais, as empresas contam com benefícios dados pelos estados, que não entraram na conta do Ministério da Economia.

Bolsonaro afirmou que a saída da empresa ocorreu porque a montadora “perdeu para a concorrência” e “em um ambiente de negócios, quando não se tem lucro, se fecha”. “Assim é na vida e na nossa casa”, completou o presidente, que disse ainda lamentar a decisão da montadora por causa de “cinco mil empregos perdidos.”

O economista Cláudio Considera, pesquisador associado do FGV IBRE, é contra subsídios para as empresas do setor automobilístico. “Essas empresas têm forte produtividade no resto do mundo, são lucrativas em todo lugar. Não há razão para não serem lucrativas no Brasil e precisarem de auxílio do governo para isso. Eu acho que subsídios devem ser dados para coisas mais básicas para a sociedade. Evidentemente, que o problema da perda de emprego é grave, mas isso tem que ser cuidado e transformado ao longo de um período.”

Ele defende que as empresas aumentem a produtividade para competir com as montadoras japonesas, por exemplo. “De repente, perdemos 5 mil empregos, mas eles serão retomados pelas empresas que aumentarão suas vendas e, dessa forma, aumentarão sua produção no Brasil.”

Decisão estratégica
Para Antônio Jorge Martins, coordenador de cursos da área automotiva na FGV, a decisão não se deveu à perda de subsídios, mas a uma estratégia da empresa. “Eles optaram por eliminar fábricas que não podem contar com produtos tecnologicamente evoluídos e que exigem constante atualização”.

Martins afirma que se trata de uma linha de atuação global da Ford, que fechou fábricas de peças na Europa recentemente, além da fábrica de caminhões em São Bernardo do Campo (SP). O objetivo é focar em veículos com maior tecnologia do que os que vinham sendo fabricados no Brasil.

“Hoje o carro conta com cada vez mais tecnologia embarcada. Tem que fazer a evolução, até porque os próprios consumidores exigem. Maior conectividade, por exemplo. Com esse foco, eles provavelmente fecharão fábricas em outros países também”, diz.

A empresa manteve sua atuação na Argentina porque lá fabricam veículos que possuem um público específico, segundo o especialista. Trata-se da Ford Ranger e da van Transit, que ainda têm boa entrada no mercado a que se destinam.

Martins afirma ser particualmente favorável à concessão de subsíduos e que isso ocorre em diversos países do mundo em relação à indústria automotiva. Ele cita os EUA, onde há subsídios para a compra de veículos elétricos. O especialista ressalta, no entanto, que a ajuda financeira deve ser por um período e em situações específicas, até a superação de barreiras iniciais ao estabelecimento das montadoras ou de produtos inovadores, por exemplo.

Ele também defende que a atuação do governo brasileiro precisa ser mais ampla no sentido de oferecer um melhor ambiente de negócios ao setor, por meio de reformas fiscais, como a tributária. Segundo ele, o mercado exigirá cada vez mais que as empresas presentes no Brasil tenham fôlego para exportar e, dessa forma, não ficar expostas às oscilações da economia e do câmbio. “Elas precisam aumentar a competitividade”, afirma.

Consumidor
Martins opina ainda que os veículos da Ford deverão sofrer desvalorização no Brasil em razão da decisão da empresa. As peças de reposição, no entanto, não deverão ser um problema de curto prazo, já que a empresa é obrigada a continuar ofertando esses itens por 10 anos no país, explica.

O especialista avalia que as demais montadoras que atuam no país vão brigar para ocupar o espaço deixado pela Ford. Os consumidores mais ligados à marca terão que se adaptar à nova realidade e buscar outras opções que satisfaçam suas expectativas. Isso tende a ser facilitado em razão da evolução tecnológica dos veículos, analisa Martins.

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