SP: Prefeitos candidatos temem volta às aulas em período pré-eleitoral

Pesquisa feita em março por uma das campanhas eleitorais na cidade de São Paulo colocou a saúde como quinto tema de maior interesse da população. Mas a pandemia de covid-19 mudou tudo. Novas pesquisas deste mesmo partido, incluindo uma neste mês, apontam o assunto como determinante para o resultado das eleições.

Isto demonstra que nem precisava de incentivo para o tema ser centro do debate, mas a volta às aulas presenciais está marcada para 8 de outubro, um dia antes do início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão. Além de um assunto tão sensível como educação aparecer no momento em que a campanha esquenta, as regras do programa de retomada do governo do estado dão autonomia para os prefeitos decidirem pelo retorno ou não dos alunos às escolas.

Prefeitos que tentam a reeleição consideram esta situação um risco de derrota. Argumentam que, se às aulas presenciais voltarem e isto levar a um aumento de casos, internações e mortes por covid-19, a campanha está perdida. Esta percepção é sentida no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

Pessoas que tratam da retomada disseram que não houve reclamações, mas é possível perceber que a maioria das cidades não vai reabrir as escolas mesmo que a autorização seja dada. Para evitar desgastes e municiar adversários, os prefeitos que concorrem a reeleição estão consultando pais e professores. A intenção é tomar uma decisão conjunta e anular a possibilidade de contratempos na fase decisiva da campanha.

Tentando o segundo mandato consecutivo em Marília, o prefeito Daniel Alonso (PSDB) concorda que o tema tem potencial para muita polêmica. Ele declarou que está consultando pais e professores e, por enquanto, a maioria das pessoas quer ficar em casa. A única exceção são os donos de colégios particulares. Mas Alonso sabe que a volta das aulas presenciais é tema inflamável.

“Hoje está tudo politizando. O Plano São Paulo e a calibração acalmaram restaurantes e comércios. Superada esta parte, vem a politização da volta ou não volta [às aulas presenciais]. A oposição vai fazer o trabalho do contra. Se abrir, eu errei e sou irresponsável. Se eu não volto, estou errado também.”

A estratégia das consultas está sendo aplicada por outras cidades. Em Atibaia, o levantamento vai ouvir 30 mil pessoas, amostra expressiva numa cidade com 142 mil habitantes. Em Guarulhos, a consulta pública ficou pronta na última semana e 87% das respostas foram contrárias à volta das aulas presenciais.

Bruno Covas deve se preparar para as críticas
O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), está no grupo dos candidatos que tentam a reeleição e vai receber muitos questionamentos e críticas de seus adversários, que sabem do peso da pandemia na definição do vencedor. A prefeitura divulga amanhã o resultado da primeira etapa do inquérito sorológico feito em pessoas com idade escolar.

A intenção é ter dados para tomar uma decisão científica amparada em dados. Covas não fala de eleições antes da convenção do partido, em 12 de setembro. Mas os adversários já têm opinião formada, que não é nada favorável ao prefeito, e não fazem segredo sobre o que pensam.

Márcio França (PSB) afirmou que São Paulo tem o carimbo do fracasso. Acrescentou que havia expectativa de a cidade liderar o enfrentamento e, em sua avaliação, isto não ocorreu. O candidato também reclama que as escolas não foram preparadas e não há condições de retorno das aulas presenciais.

“Na minha visão, praticamente tudo o que eles fizeram foi errado, a começar pela educação. Eles não prepararam, não fizeram nada. Natural que os pais não queiram mandar seus filhos para a sala de aula porque acham que o filho vai ser contaminado. Se escola não tem papel higiênico, claro que não terá álcool gel.”

Ele afirma que não há condições de retorno porque esta medida exigiria testes em professores e funcionários e isto não ocorreu.

Concorrente pelo PSL, a deputada federal Joice Hasselmann vai argumentar que Covas se portou como um subalterno do governador João Doria (PSDB).

“A pandemia escancarou uma das grandes limitações do prefeito Bruno Covas, ele ficou a reboque do governador João Doria, ele não tomou inteiramente a gestão da crise em suas mãos. Ele não seguiu o que diz a bandeira de São Paulo: conduzo, não sou conduzido. Ele foi levado pela mão do governador.”

A candidata disse que o prefeito não decretou lockdown quando deveria porque ficou à espera de Doria, nem fez a articulação com os demais prefeitos da região metropolitana. Joice afirmou que a falta de atitude levou a uma quarentena mais prolongada do que o necessário. Ela considera que há condições de retorno parcial das aulas.

PT e PSOL contra a volta às aulas
Candidato do PT, Jilmar Tatto afirmou que não há condições para retomada das aulas presenciais em 8 de outubro e, tampouco, neste ano. Ele defende que é preciso ouvir especialistas em saúde, mas não entende ser viável o retorno.

“Volta às aulas quem tem que determinar são as autoridades de saúde. Minha avaliação é que não tem as mínimas condições de voltar as aulas neste ano em função do despreparo e do desleixo com que o prefeito de São Paulo está se comportando”.

Tatto ressaltou que a pandemia será importante para definir o vencedor da eleição e disse que, além das questões de saúde e educação, há o fator do emprego e da renda. O candidato declarou que implantaria um programa de renda básica e disse que a prefeitura tem R$ 18 bilhões em caixa.

Josué Rocha, coordenador da pré-campanha de Guilherme Boulos (PSOL) à prefeitura, afirmou que a cidade foi abandonada à própria sorte na gestão Bruno Covas. Ele partilha da avaliação de que o prefeito ficou à sombra do governador João Doria.

No entendimento do coordenador da campanha do PSOL na cidade de São Paulo, não é hora de discutir volta às aulas presenciais. Rocha ainda disse que as declarações de estabilidade nos óbitos tratam as pessoas como se fossem apenas números.

“É totalmente descabido e prematuro discutir a volta às aulas enquanto centenas de pessoas morrem todos os dias na capital e no restante do Estado. Fala-se em estabilidade no número de mortes como se elas fossem apenas números, e não vidas perdidas. É o platô da morte.”

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