São Paulo infla total de vacinados com moradores de outras cidades

Ao contrário do que anunciou a Prefeitura de São Paulo na terça-feira (17), não é verdade que todos os moradores adultos da capital paulista tomaram a primeira dose da vacina contra a covid-19.

No boletim divulgado às 13h de terça-feira pela Secretaria Municipal de Saúde, a cidade aparecia com 9.248.451 de pessoas vacinadas com a primeira dose, número ligeiramente superior à estimativa da população da capital paulista, de 9.230.227 moradores.

A Secretaria Municipal de Saúde admitiu que nem todos os adultos da cidade tinham se vacinado, apesar de o anúncio oficial dizer isso. Por telefone, a pasta alegou que no início da campanha de imunização contra a covid, quando ainda não era obrigatória a apresentação de comprovante de residência, muitas pessoas de outras cidades se deslocaram a São Paulo para tomar a primeira dose.

Para evitar a imprecisão na informação de que todos os habitantes com mais de 18 anos tomaram ao menos uma dose, a Secretaria foi questionada pela reportagem se tinha uma estimativa de quantos moradores vizinhos entraram na conta da capital. O órgão disse não ter o dado e explicou que precisaria de mais tempo para fazer o levantamento.

O comprovante de residência nos postos de saúde da cidade só passou a ser exigido em 28 de maio, quatro meses e dez dias após o início da vacinação de covid no Brasil. Foi em São Paulo que ocorreu a primeira aplicação do país, em 17 de janeiro.

De acordo com o boletim diário de Covid de 27 de maio, divulgado pela prefeitura, até aquela data 3.181.917 pessoas tinham recebido uma dose dos imunizantes disponíveis, mais de um terço do total de moradores adultos da capital.

A decisão de fazer o levantamento da quantidade de pessoas de fora que procuraram os postos de saúde da cidade poderia ter sido tomada bem antes.

Quando foi anunciada a necessidade do comprovante de residência, o secretário de Saúde do município, Edson Aparecido, mencionou que era comum e esperado que moradores de outras cidades escolhessem São Paulo para se imunizar.

Ele explicou em release enviado pela prefeitura em 27 de maio que a exigência foi adotada porque os grupos prioritários que passavam a ser vacinados tinham pessoas mais novas, com mais facilidade de deslocamento. “Portanto, é natural que a cidade de São Paulo, que tem uma estrutura de vacinação muito grande, atraia pessoas de outras localidades”, disse. Naqueles dias estavam sendo convocadas para os postos pessoas com mais de 50 anos com comorbidades.

Permitir a aplicação em habitantes de outros pontos do estado ou do país por mais de quatro meses foi uma decisão local que ajudou a elevar o total de vacinados, mas pode explicar também porque em alguns momentos a capital ficou sem vacinas. Isso porque, segundo a Secretaria Estadual de Saúde, as doses são distribuídas de acordo com o número de moradores que a cidade tem em cada grupo prioritário, apontados pela Fundação Seade (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados).

Em outras palavras, muito paulistano pode ter ficado sem vacina porque alguém de fora tomou a dose que deveria ser sua.

O percentual de 100% da população, se fosse correto, colocaria a cidade na liderança mundial de vacinação parcial contra a covid, à frente inclusive de Serrana, no interior do estado, na qual um estudo do Instituto Butantan se propôs a imunizar toda a população local, de cerca de 45 mil pessoas, e alcançou o índice de 97,7% na primeira dose.

Países que se destacam pela velocidade da imunização nesta pandemia ficaram muito longe dos 100% de adultos. Brasil e Estados Unidos têm pouco mais de 70% das pessoas com 18 ou mais parcialmente imunizadas.

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