Resfriados treinam o sistema imune para se defender da covid-19

Infecções prévias provocadas pelo vírus do resfriado comum podem criar uma memória nas células T, que compõem o sistema imune, ajudando a reconhecer e, assim, proteger o corpo do SARS-CoV-2, vírus que causa a covid-19, de acordo com um estudo liderado por cientistas do Instituto de Imunologia de La Jolla, nos Estados Unidos, publicado na revista científica Science na terça-feira (4).

Eles descobriram que as células T, que reconhecem os coronavírus do resfriado comum, também reconhecem locais específicos no SARS-CoV-2, incluindo partes da proteína spike que ele usa para se ligar e invadir células humanas.

Isso explicaria por que algumas pessoas não contraem a doença ou quando infectadas têm sintomas mais brandos, de acordo com a pesquisa. No entanto, os autores ressaltam que essa hipótese ainda é especulativa e requer mais pesquisas para ser confirmada, pois não se sabe exatamente qual o papel das células T na luta contra a covid-19.

“É possível que essa reatividade imunológica possa se traduzir em diferentes graus de proteção contra a covid-19”, ressaltou Alessandro Sette, coautor do estudo, por meio de comunicado.

Um estudo anterior mostrou que 40% a 60% das pessoas nunca expostas ao SARS-CoV-2 tinham células T que reagiram ao vírus. O sistema imunológico reconheceu fragmentos do vírus que nunca havia visto antes. Essa descoberta acabou sendo um fenômeno global e foi relatada em pessoas da Holanda, Alemanha, Reino Unido e Cingapura.

Os cientistas se perguntavam se essas células T vinham de pessoas que já haviam sido expostas ao coronavírus comuns do resfriado, chamados por eles de “primos menos perigosos da SARS-CoV-2”. A exposição a esse vírus estaria levando à memória imunológica contra o SARS-CoV-2?

No novo estudo, os pesquisadores analisaram amostras de sangue coletadas entre 2015 e 2018, muito antes do surgimento da covid-19 em Wuhan, na China.

Essas amostras de sangue continham células T que reagiram a mais de 100 locais específicos no SARS-CoV-2. Os pesquisadores mostraram que essas células T também reagiram a quatro coronavírus diferentes que causam infecções comuns pelo resfriado.

“Este estudo fornece evidências moleculares diretas muito fortes de que as células T podem ‘ver’ sequências muito semelhantes entre os coronavírus do resfriado comum e o SARS-CoV-2”, explicou Sette, no comunicado do Instituto La Jolla.

Além de se ligarem à proteína spike, as células T também reconheceram outras proteínas virais. A maioria das candidatas à vacina contra a doença tem como alvo a proteína spike, mas as novas descobertas sugerem que a inclusão de outras proteínas em uma vacina, além da spike, pode aproveitar essa reatividade cruzada de células T e aumentar ainda mais sua eficiência, concluem os pesquisadores.

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