Perto do fim, rodízio da madrugada ficou devendo em resultados

Se para o paulistano comum foi difícil enxergar utilidade no rodízio de automóveis durante a madrugada, um estudo acaba de apontar que a operação interferiu muito pouco nos deslocamentos de pessoas feitos na região metropolitana. “É uma operação surrealista, cuja única função parece ter sido prejudicar a mobilidade daqueles que trabalham nesse turno, como funcionários da área de segurança, hospitais, funerárias, entre outros”, diz Horácio Augusto Figueira, autor do trabalho e consultor em engenharia de transporte de pessoas e segurança no trânsito.

O rodízio noturno foi implementado em São Paulo no dia 22 de março, das 20h às 5h, sempre nos dias úteis e seguindo o tradicional esquema de final de placas. O objetivo era acompanhar o toque de recolher determinado pelo governo do estado e liberar a circulação de veículos durante o dia, desafogando o transporte público. No dia 9 de julho, a medida passou a vigorar das 23h às 5h – o último dia da operação nesses moldes será esta sexta-feira (30). A Prefeitura anunciou esta semana que o rodízio tradicional, das 7h às 10h e das 17h às 20h, será retomado na próxima segunda-feira (2).

Origem e destino

Em seu estudo, Figueira utilizou como base a mais recente pesquisa de Origem e Destino (2017) do Metrô, que considera o número de 42.007.000 como o total de viagens diárias de pessoas na região metropolitana de São Paulo (em todos os modos, inclusive a pé). Deslocamentos no chamado “modo auto” (quem está dirigindo e eventuais caronas) representam 11.341.000 das viagens diárias (ou 27%).

A partir daí, em um minucioso cruzamento de dados, Figueira fez todas as combinações possíveis de percursos no mapa de origem e destino, destacando as viagens que atravessam o Centro Expandido – logo, são afetadas pelo rodízio. Nas 24 horas do dia, os deslocamentos no modo auto representam 7,83% do total de viagens (ou, em números absolutos, 3.288.890).

“Quando considerei 20% dessas viagens, ou seja, os 20% do carros excluídos pelo final da placa, a porcentagem cai para 1,57%, ou 657.778 viagens no modo auto”, explica o consultor, lembrando que considerou na conta as 24 horas do dia, o que não ocorre na operação convencional, dividida em dois intervalos (manhã e tarde/noite).

Rodízio da madrugada

Restringindo a conta para o atual horário de rodízio, das 23h às 5h, as viagens no modo auto caem para 39.467 (0,09% do total de viagens diárias em todos os modos ou 0,35% das viagens diárias pelo modo auto). “Isso significa que, de cada 10 mil deslocamentos de carro, a CET tenta cercar 9 viagens. É tão pouco que não se justifica”, afirma o especialista em trânsito. “Isso sem falar que o motorista atingido por essa restrição pode recorrer a um segundo veículo da família, ao táxi ou ao carro de aplicativo.”

O próprio rodízio convencional, realizado nos dias úteis das 7h às 10h e das 17h às 20h, pouco acrescenta à fluidez do trânsito em São Paulo hoje. “Funcionou no início, por uns quatro ou cinco anos. Mas as autoridades ignoraram a inteligência e o poder de compra dos motoristas, que adquiriram um segundo carro, muitas vezes mais velho e poluente”, disse Figueira. “Isso sem falar naqueles que compram motocicletas, que estão fora do rodízio e poluem mais que os automóveis.”

No atual momento de pandemia, Figueira afirma que o foco da Prefeitura está errado, pois o carro não transmite covid-19. “O fundamental é atuar no transporte público, de modo a reduzir a lotação nos horários de pico e, aí sim, evitar a propagação do vírus”, afirma.

Escalonamento de horários

A sugestão do consultor é escalonar o horário de abertura dos diferentes segmentos do comércio e serviço de 10 em 10 minutos (considerando o número de empregados em cada setor). “Desta forma, o fluxo de pessoas no transporte público seria diluído logisticamente de forma eficiente”, diz Figueira, que sugere que os intervalos de 10 minutos se estendam por três horas (das 8h às 11h e das 17h às 20h, por exemplo).

“Nesse caso, seriam criados 18 intervalos de 10 minutos, o que permitiria que 100% dessa demanda fosse distribuída de forma harmônica, reduzindo os picos de embarque e desembarque no transporte coletivo”, afirma Figueira.

Intervalos de 10 minutos

Assim, por exemplo, funcionários de farmácias entrariam às 8h, empregados de lojas de material de construção às 8h10, de material elétrico às 8h20, de lojas de calçados às 8h30, de lojas de roupas às 8h40, e assim por diante. “Evidentemente, os horários seriam adotados como medida inteligente e espontânea, não sendo uma obrigação legal”, explica o consultor.

O período de 10 minutos, segundo ele, não é aleatório. “Nesse intervalo, circulam em média 4 a 5 trens do Metrô, 1 ou 2 trens da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e há 1 ou 2 viagens de ônibus por linha. A microdistribuição dos horários do comércio, segundo Figueira, diminuiria as aglomerações no transporte público, reduzindo o risco de covid e elevando o nível de conforto dos passageiros.

O que diz a Prefeitura

A Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes (SMT) e da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), esclareceu em nota que o rodízio noturno foi adotado “diante da necessidade de se conter a disseminação da covid-19”. “Com o anúncio, pelo estado, do fim do toque de restrição a partir do dia 1º de agosto, o rodízio voltará ao formato tradicional na segunda-feira, dia 2 de agosto.”

Segundo a nota, o rodízio de veículos em seu formato tradicional continua sendo um instrumento imprescindível para a mobilidade. “Prova disso é que, apesar do aumento constante da frota de veículos na cidade nos últimos anos, os índices de lentidão vêm se mantendo estáveis nos últimos anos, inclusive nos horários de pico”, esclarece.

De acordo com a Prefeitura, o escalonamento de horários para o funcionamento de atividades industriais, comerciais e de serviços durante o estado de calamidade para enfrentamento da pandemia “é uma recomendação do poder público municipal desde abril de 2020, inclusive por meio de decreto.”

A Prefeitura informa, ainda, que a frota de ônibus das linhas municipais da cidade de São Paulo foi mantida acima da demanda apresentada desde o início da pandemia. “No momento, a frota do sistema de transportes está em 93,41% nos bairros mais afastados do centro e em 88,28% em toda a cidade”.

Sobre a prevenção à covid, a SPTrans informou que adotou uma série de medidas, como reforço na higienização dos veículos e nos terminais, inclusive com equipamento automatizado, além do uso obrigatório de máscara no interior dos coletivos.

“Além disso, o inquérito sorológico realizado pela Prefeitura mostra que a proporção de pessoas infectadas que saem de casa para trabalhar ou realizar outras atividades essenciais é menor em relação a quem sai para locais e atividades não essenciais, independentemente do meio de transporte ou da forma de deslocamento”, finaliza.

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