Partido de Russomanno tem suspeitos de elo com PCC, loteamento de cargos e desvio de servidores

“Gente, me atacam com programas antigos de Carnaval, apoio a Dilma [Rousseff], caixa de supermercado. Mas comigo não tem nenhum ataque moral, não tem covidão tucano, não tem suspeita de respiradores superfaturados”, diz o candidato a prefeito de São Paulo Celso Russomanno (Republicanos) em sua campanha eleitoral.

Na contramão do discurso do deputado federal em defesa da ética, o partido ao qual Russomanno é filiado enfrenta uma série de problemas em administrações paulistas e no Legislativo, com assuntos que vão de loteamento de cargos para pessoas ligadas à Igreja Universal até suspeita de ligação de membros da legenda com a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), passando por desvios de servidores no horário de expediente.

Embora Russomanno hoje concorra contra o prefeito Bruno Covas (PSDB), e critique sua gestão na prefeitura, o Republicanos até pouco tempo atrás fazia parte da administração, ocupando cargos na Secretaria Municipal de Habitação, no Serviço Funerário e na Subprefeitura do Itaim Paulista. Os três órgãos enfrentaram problemas administrativos.

A joia da coroa entre os locais ocupados pela legenda foi a pasta da Habitação, órgão que envolve grande orçamento (em 2020, de R$ 451 milhões).

Os partidos aliados geralmente loteiam os órgãos com militantes. No entanto, conforme mostrou reportagem da Folha, o partido utilizou empresas que têm contratos de até centenas de milhões de reais com o município para lotear cargos a aliados.

A secretaria era, então, chefiada por Aloisio Pinheiro, ligado à Igreja Universal, da qual o Republicanos é o braço político. Em uma espécie de folha de pagamento paralela, empresas contratadas para realizar obras e apoio técnico contratavam militantes, fiéis da igreja, pastor e parente de dirigente partidário.

A gestão negou influenciar nas contratações, mas documentos internos afirmam que “contratações já chegam para o RH aprovados pela Sehab (Secretaria de Habitação)” e citam “solicitação de gabinete”.

O Serviço Funerário é considerado de baixa qualidade, e a gestão Covas desejava privatizá-lo. No entanto, havia pressão do Republicanos, que controlava o órgão, para que isso não acontecesse.

As queixas de serviços de má qualidade continuaram na gestão do partido. Em um dos casos investigados pela Controladoria, vistorias em seis cemitérios em 2018 chegaram a flagrar, por exemplo, montanhas de ossos de exumação —realizada anos após o enterro— sem identificação adequada.

Na Subprefeitura de Itaim Paulista (zona leste), outro feudo do Republicanos, um servidor foi preso sob suspeita de cobrar R$ 300 mil de propina de um mercado.

Segundo a Promotoria, ele atuava “prestando serviço de regularização de imóveis localizados na sua região de atuação e em outras localidades da capital, cobrando pelo serviço prestado e coordenando com seus funcionários o deferimento dos pedidos, além de apresentar retaliação aos empresários que não contratam os seus serviços”.

No Legislativo, a atuação do partido também teve problemas. Conforme a Folha mostrou em 2019, assessores do Legislativo federal, estadual ou municipal, lotados em gabinetes de membros do Republicanos, davam expediente em outros lugares e usavam o horário de trabalho para atuar em braços políticos e religiosos do partido.

Na ocasião, a Folha de S.Paulo passou um mês no escritório do diretório municipal do Republicanos, período em que foram flagrados veículos oficiais e cerca de 20 servidores públicos no sobrado localizado na avenida Indianópolis (zona sul).

Questionados, o diretório estadual do Republicanos e a campanha de Celso Russomanno afirmaram que o partido não tem em seus quadros nenhum integrante condenado por corrupção ou qualquer outro crime contra a administração pública.

As suspeitas das autoridades de elo com o crime organizado por parte de membros do partido estão em prefeituras da região metropolitana de São Paulo e envolvem até um sócio de André do Rap, traficante foragido após ser solto por habeas corpus concedido pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Marco Aurélio Mello.

Segundo investigação da Polícia Civil, o crime organizado conseguiu penetrar na administração da cidade de Arujá por meio de licitações e indicações políticas.

O grupo contaria com a participação do vice-prefeito da cidade, Márcio Oliveira (que chegou a ser preso), diz a polícia.

Oliveira teria feito em 2016 um acordo com o traficante Anderson Pereira Lacerda, conhecido como Gordo, próximo de integrantes do PCC, a fim de obter dinheiro para a campanha do prefeito José Luiz Monteiro (MDB) em troca de serviços na área de coleta de lixo e saúde, dizem investigadores.

O delegado Fernando Goes Santiago, do 4º Distrito Policial de Guarulhos, afirma que o vice-prefeito havia sido advogado de Gordo, que fazia negócios com o PCC como traficante internacional e era sócio de André do Rap.

Segundo a polícia, Oliveira conseguiu dinheiro com Gordo para a campanha em troca de beneficiá-lo. Depois da eleição, o criminoso foi cobrar a dívida, e o grupo passou a mandar em alguns setores da administração após fraudes em licitações, dizem investigadores.

Entre áreas elencadas como comandadas por ele, estaria a da saúde. As investigações apontaram que o grupo prestaria serviços de baixa qualidade acima do preço. “Era uma tragédia anunciada. Se pesquisar vai ver vários escândalos na prestação de serviço, falta de médicos, insumo, equipamento”, diz Santiago.

O delegado afirmou que o poder do criminoso chegava ao ponto de vetar a troca de um secretário. Apesar de estar foragido da Justiça, segundo a polícia, na época Gordo vivia em um condomínio em Arujá no qual era dono de 20 casas, que tinham túneis e até um bunker.

Gordo continua foragido e está no rol de procurados da Interpol, assim como André do Rap. Já Oliveira foi solto.

À Folha o vice-prefeito diz que a investigação se dá por perseguição política, já que ele rompeu com o prefeito de Arujá.

Ele alega que as imputações são levianas e injustas, que não há prova de que ele tenha recebido qualquer dinheiro do crime organizado e que Gordo estava preso na época da campanha em 2016.

Oliveira diz que seu vínculo com Gordo foi estritamente profissional e que a advocacia é garantida na Constituição. Oliveira diz que a única secretaria que ocupou, a da Educação, não teve nenhum problema em contratos e que quem deve explicações é quem assinou os contratos suspeitos.

A Prefeitura de Arujá diz que “lamenta os ocorridos, continua aguardando os desfechos da operação e se coloca inteiramente à disposição da Justiça para continuar colaborando no que for preciso”.

A administração da cidade diz que é vítima das irregularidades apontadas e que abriu sindicância para revisar contratos e processos administrativos.

Outro filiado ao Republicanos que enfrenta suspeitas de envolvimento com a facção criminosa é o atual prefeito de Embu das Artes. Ney Santos chegou a ser cassado em 2018 por suspeita de ter recebido em sua campanha dinheiro do PCC, a quem o Ministério Público Eleitoral diz que ele é ligado.

Ele teve declarações de apoio de Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos, partido que já injetou na campanha em Embu da Artes mais de R$ 900 mil em recursos do fundo eleitoral.

No fim do ano passado, o prefeito ficou afastado por cinco dias depois de ser indiciado pela Polícia Federal em inquérito sigiloso que apura suspeita de lavagem de dinheiro, de 2014 a 2017.

Também foi denunciado sob acusação de fraude em licitação, organização criminosa e corrupção na Operação Prato Feito, que atingiu diversos municípios.

A defesa de Ney Santos diz que ele não tem condenação e que a suspeita de participação do político no PCC é “absolutamente infundada”.

Ney Santos, por meio de mensagem de áudio, afirmou que há dez anos vive um pesadelo e se defende de perseguição. “Estou provando a minha inocência. Um dia, vocês vão ver que tudo isso que falam de mim não é verdade.”

O QUE PESA CONTRA O REPUBLICANOS

Investigação de elo com o PCC 
O prefeito de Embu das Artes, Ney Santos, e o vice-prefeito de Arujá, Márcio Oliveira, ambos do Republicanos, foram investigados por suspeitas de envolvimento com o PCC.

Ney Santos chegou a ser cassado em 2018 por suspeita de ter recebido em sua campanha dinheiro do PCC. Segundo investigação da Polícia Civil, o crime organizado conseguiu penetrar na administração de Arujá por meio de licitações e indicações políticas e contaria com a participação de Márcio Oliveira, que chegou a ser preso. Os dois negam as acusações

Loteamento de aliados 
Durante a gestão do Republicanos na Secretaria Municipal de Habitação de SP, que envolve grande orçamento (em 2020, de R$ 451 milhões), aliados políticos foram alocados em empresas prestadoras de serviços. A pasta era, então, chefiada por Aloisio Pinheiro, ligado à Igreja Universal, da qual o Republicanos é o braço político

Desvio de servidores 
Assessores legislativos do partido usavam o horário de trabalho para atuar em braços políticos e religiosos da sigla

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