O que se sabe sobre a subvariante BA.2 da linhagem Ômicron, que chegou ao Brasil

A variante Ômicron do novo coronavírus foi identificada em novembro de 2021. Desde a classificação da cepa como uma variante de preocupação pela Organização Mundial da Saúde (OMS), foram detectadas diferentes outa linhagens da variante, incluindo subvariantes chamadas de BA.1, BA.1.1, BA.2 e BA.3. A linhagem BA.2 apresenta um grande número de mutações que se diferem daquelas identificadas na cepa BA.1.

Nas últimas semanas, foi observado um aumento relativo de casos associados à subvariante BA.2 em vários países.

Pelo menos 57 países já enviaram sequências genéticas de amostras pertencentes à subvariante ao bancos de dados internacionais. A proporção semanal de BA.2 em relação a outras sequências de Ômicron aumentou em mais de 50% durante as últimas seis semanas em vários países.

Segundo a OMS, que realiza o monitoramento constante da evolução do SARS-CoV-2, até o momento não foi possível estabelecer como e onde as subvariantes da Ômicron se originaram e evoluíram.

No Brasil, os primeiros casos da subvariante BA.2 foram identificados no início de fevereiro pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Foram dois casos no Rio de Janeiro e um em Santa Catarina. A confirmação foi feita a partir do sequenciamento genômico das amostras pelo Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

O Ministério da Saúde informou ter recebido a notificação de sete casos da linhagem no Brasil, incluindo outros três casos no estado de São Paulo e um no Rio de Janeiro.

A OMS enfatiza que neste momento devem ser priorizadas investigações sobre as características da subvariante BA.2, incluindo transmissibilidade, além de propriedades de escape imune e virulência.

“A subvariante ainda é muito nova, em termos de circulação, para tirarmos grandes conclusões. Têm vários grupos de pesquisa onde o vírus está circulando com um número maior de casos trabalhando para buscar melhor entendimento. Os resultados ainda são um pouco conflitantes devido à amostragem utilizada nas pesquisas”, afirma a pesquisadora Marilda Siqueira, da Fiocruz.

Entenda o que já se sabe e o que permanece incerto sobre a linhagem.

Transmissibilidade
Na Dinamarca, a subvariante BA.2 se tornou predominante substituindo a subvariante BA.1, segundo um estudo. Com base em dados nacionais, os pesquisadores estimaram a dinâmica de transmissão das duas linhagens após a disseminação da Ômicron no país entre o final de dezembro e o início de janeiro.

Foram analisados mais 8,5 mil casos registrados no país. Os resultados foram publicados em formato preprint, ainda sem revisão por pares.

Pesquisadores verificaram que a subvariante BA.2 se mostrou significativamente mais transmissível que a linhagem BA.1 e também possui propriedades de escape das respostas imunológicas, o que pode reduzir em parte o efeito protetor da vacinação. No entanto, não foi observado aumento da transmissibilidade a partir de indivíduos vacinados que apresentaram a infecção.

A variante Ômicron, de qualquer forma, apresenta uma alta transmissibilidade, principalmente em comparação com outras linhagens do vírus. Desde que foi identificada, a variante se tornou predominante no mundo em menos de três meses.

“Como a Ômicron é uma variante que possui uma taxa de replicação e de disseminação ainda maior que a Delta, já especulávamos que novas linhagens pudessem surgir a partir dessa disseminação intensa da Ômicron pelo mundo”, afirmou o pesquisador Flávio Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV).

Segundo Fonseca, o Brasil deve apresentar uma redução no número de casos de Covid-19 associados à variante Ômicron nas próximas semanas.

“Em todo o Brasil, a gente começa a ver sinais de estabilidade ou queda. Isso está refletindo o que já vimos em outros países, que tiveram essa onda causada pela Ômicron antes. Temos essa possibilidade de observar os países que, desde o início da pandemia, vem tendo ondas antes do hemisfério Sul”, afirma.

O virologista destaca que a subvariante BA.2 é mais uma linhagem detectada da Ômicron e que outras poderão surgir. “A BA.2 provavelmente não vai ser a última linhagem, outras surgirão e é importante manter essa vigilância genômica até para detectar se tem alguma dessas linhagens, ou mesmo uma nova variante, que apresente um risco global mais importante”, disse.

Sintomas e gravidade da doença são semelhantes
A infecção pela variante Ômicron tem apresentado um risco menor de doença grave e de morte em comparação com as cepas anteriores do SARS-CoV-2. De acordo com a OMS, esse fator pode ser fruto da combinação entre a gravidade mais baixa intrínseca da variante, conforme sugerido por vários estudos, e a eficácia da vacinação contra o agravamento da infecção.

No entanto, a OMS alerta que os altos níveis de transmissão resultaram em aumentos significativos na hospitalização, com impactos nos sistemas de saúde dos países. Nesta terça-feira (8), oito estados e o Distrito Federal permanecem com taxa de ocupação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) acima de 80%.

“Até o momento, os sintomas da infecção causada pelas variantes BA.1 e BA.2 têm sido os mesmos, mas precisamos de mais tempo para avaliar isso”, disse Marilda.

Eficácia das vacinas
Diante do surgimento de uma nova variante do coronavírus, o impacto para a eficácia das vacinas em uso contra a Covid-19 é uma das primeiras perguntas feitas pela comunidade científica global.

Os imunizantes foram desenvolvidos com o objetivo principal de reduzir as chances de agravamento e óbitos pela doença. No entanto, as pessoas vacinadas ainda podem contrair e transmitir o vírus – o que não representa uma falha das vacinas.

“As vacinas protegem diminuindo a questão de hospitalização. Em relação à Ômicron, estamos vendo aqui no Brasil um número de casos muito maior do que tivemos com outras variantes. No entanto, sem a vacinação, os números de hospitalizações e de mortes seriam muito maiores”, afirma Marilda.

Quando as vacinas são aplicadas, elas despertam diferentes mecanismos no organismo. Além da produção de anticorpos neutralizantes, elas promovem a ativação de outras células de defesa, os chamados linfócitos T. A resposta celular gerada pela vacinação também envolve células de memória do sistema imunológico que permanecem no corpo.

Um estudo publicado no periódico Science Immunology mostrou que os indivíduos vacinados mantêm a imunidade a partir das células T contra a Ômicron. A ação dessas células contribui para prevenir o agravamento da doença, mesmo diante de uma potencial redução na quantidade de anticorpos neutralizantes.

Até o momento, as vacinas continuam apresentando efetividade na proteção contra o agravamento e mortes pela doença, principalmente em pessoas que apresentam o esquema vacinal completo. Apesar disso, as farmacêuticas atuam no desenvolvimento de imunizantes com formulação específica contra a Ômicron.

Imunidade e métodos de diagnóstico
A testagem é uma das ferramentas utilizadas para o controle da Covid-19. A partir do diagnóstico positivo, os profissionais de saúde podem orientar o isolamento do paciente e realizar o rastreamento de outras pessoas que podem ter sido expostas ao contágio.

As mutações presentes nas diferentes linhagens do coronavírus também são motivo de preocupação em relação ao diagnóstico da doença. Os testes desenvolvidos a partir das primeiras linhagens em circulação pelo mundo são adaptados, considerando a evolução viral, com o objetivo de manter a capacidade de detecção do vírus.

A subvariante BA.2 apresenta mutações convergentes às da subvariante BA.1, além de um conjunto de mutações únicas. Apesar disso, não foram registrados impactos diretos para o desempenho dos kits de diagnóstico em uso pelos países.

A infecção natural pelo novo coronavírus confere certa imunidade ao organismo, que tende a diminuir com o tempo. Segundo o pesquisador da USP, José Eduardo Levi, são necessários estudos adicionais para explicar se uma pessoa infectada pela subvariante BA.1 poderá ou não se contaminar com a subvariante BA.2 da Ômicron.

“A questão é que a BA.1 e a BA.2 são muito diferentes, elas têm 38 mutações comuns, mas têm um número grande de mutações que são exclusivas. Isso pode fazer com que o vírus seja muito diferente para o sistema imune, então a resposta imunológica cruzada, que é a proteção que nós esperamos que aconteça, pode não ser tão eficiente”, explica Levi.

Para o pesquisador, os achados contrariam a hipótese de que seria possível atingir um nível de imunidade coletiva pela infecção natural pela variante Ômicron. “A imunidade por Covid-19 dura pouco, mesmo que a Ômicron pegue todo mundo, daqui a seis meses essas pessoas vão estar suscetíveis novamente”, afirma.

Entenda como surgem as subvariantes do coronavírus
Ao infectar uma pessoa, o coronavírus invade as células e passa a produzir inúmeras cópias. Nesse processo, há uma possibilidade de que o vírus produza erros ao copiar o próprio material genético, gerando então vírus com mudanças na sequência de RNA.

“Toda vez que o vírus replica no organismo de uma pessoa, há uma chance de surgir uma variante. Quanto maior a taxa de replicação, e quanto mais pessoas são infectadas, maiores são as chances de surgirem novas variantes. Só identificamos uma nova variante quando sequenciamos o genoma do vírus”, explica o pesquisador da USP, José Eduardo Levi.

O virologista Fernando Motta, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), destaca que o surgimento de novas variantes faz parte de um processo natural do comportamento do vírus e pode ocorrer de forma aleatória.

“Por serem muito simples, os vírus apresentam uma taxa de evolução muito rápida. Um processo evolutivo de um vírus pode acontecer em algumas semanas, por exemplo. Com uma grande quantidade de variantes surgindo, há uma maior chance que alguma delas possa ser mais eficiente na capacidade de infecção, provoque uma doença mais grave ou seja capaz de escapar da resposta imunológica da população”, afirma.

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