Novas mensagens desmentem Bolsonaro sobre saída de Valeixo, dizem delegados

A nova troca de mensagens revelada pelo jornal O Estado de S.Paulo, em que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) comunicava ao ainda ministro Sergio Moro (Justiça) a demissão do então diretor-geral da Polícia Federal Maurício Valeixo, reforça a tese de que a troca foi contrária à vontade do delegado.

Para policiais federais experientes, fica claro que o chefe da corporação foi demitido e não saiu “a pedido”, como o Diário Oficial registrou. As mensagens, segundo eles, dementem Bolsonaro, que tem dito que o próprio Valeixo afirmou que estava cansado e que queria deixar o cargo.

Para além disso, é mais um elemento para reforçar ações não republicanas do presidente em um órgão de controle, avaliam essas fontes.

Às 6h26 de 22 de abril, dois dias ates de demissão de Valeixo, Bolsonaro mandou mensagens a Moro anunciando a saída do chefe da PF. “Moro, Valeixo sai esta semana”, escreveu ele. “Está decidido”, continuou. “Você pode dizer apenas a forma. A pedido ou ex ofício [sic].”

Ao comentar as mensagens, um delegado da PF reiterou que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi flagrado tentando mudar pessoas de seu interesse na polícia por motivos pouco desejáveis. No entanto, não realizou esse intento.

Ao contrário, diz esse policial, Bolsonaro não só tentou, como conseguiu fazer uma troca sem motivação técnica e com indicadores de que agiu por interesses particulares. Em reunião ministerial no mesmo dia, o presidente fala em proteger amigos e familiares.

Um outro policial experiente concorda com o colega. Mas faz uma ressalva. Trocar alguém esperando, no futuro, fazer um pedido para proteger ou perseguir alguém numa investigação não é crime.

Segundo ele, só haveria crime, por exemplo, se Bolsonaro trocasse o diretor da PF no Rio de Janeiro —como o mandatário mencionou publicamente e em reunião ministerial, fizesse um pedido ilegal e essa solicitação irregular fosse cumprida. Nada disso aconteceu, destaca o policial.

Ainda assim, os dois investigadores entendem que há algo muito grave e errado na forma como Bolsonaro trata a corporação responsável por investigar casos de corrupção.

Governo Bolsonaro faz “injunções políticas reprováveis” na PF

Paulo Lacerda, ex-diretor geral da PF e da Abin (Agência Brasileira de Inteligência),o governo Bolsonaro faz “injunções políticas reprováveis” na Polícia Federal.

Lacerda inaugurou a fase de grandes operações na corporação da PF, em 2003. Essas ações acabaram resultando até no indiciamento do irmão de Lula, prenderam o banqueiro Daniel Dantas e chegaram até as Operações Monte Carlo e Lava Jato.

Nos anos 90, ele próprio investigou o esquema “PC”, que resultou no impeachment de Fernando Collor.

“Sinto-me muito preocupado ao perceber que a Polícia Federal, um órgão que atingiu elevado nível de respeitabilidade pela atuação isenta e qualificada, esteja tão exposta a injunções políticas reprováveis neste governo”,.

Apreensão de celular de presidente é improvável

O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, e outros generais da reserva têm receio que o celular de Bolsonaro seja apreendo por ordem do STF (Supremo Tribunal Federal) no inquérito que investiga se o presidente cometeu crimes ao interferir no comando da PF. Para eles, isso geraria uma crise institucional ou até uma “guerra civil”.

No entanto, é improvável que o telefone do presidente seja apreendido, avaliam os policiais.

Para eles, a situação não seria ilegal. “A lei é para todos”, repete um deles.

Esse delegado experiente pergunta se militares e apoiadores do governo não criticavam a PF e o STF quando havia buscas e apreensões contra Lula ou quando a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) teve suas conversas grampeadas e divulgadas.

No entanto, sequer haveria necessidade de apreender o telefone de Bolsonaro, uma medida invasiva, para se obter as provas exigidas pela investigação neste momento.

Um policial destaca que sequer o telefone do denunciante, o ex-ministro da Justiça Sergio Moro, foi apreendido.

O outro lembra que, caso seja necessário buscar uma prova de uma conversa com Bolsonaro – como no exemplo da possível indicação ao STF – poderia ser feita a busca e apreensão de aparelhos de parlamentares, como a deputada Carla Zambelli (PSL-SP).

Um delegado afirma que, além do mais, seria inédito a apreensão de um telefone de um presidente no Brasil. Isso porque ali estariam conversas com outros atores políticos, chefes de Estados internacionais e uma série de informações que nada têm a ver com o inquérito em que Bolsonaro responde no STF.

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