Guedes ‘debocha’ do FMI e demonstra ‘despreparo’, dizem economistas

O anúncio do fechamento do escritório do Fundo Monetário Internacional (FMI) no Brasil , feito nesta quinta-feira após críticas do ministro Paulo Guedes à entidade, foi lamentado por economistas ouvidos pelo GLOBO.

Eles criticam a posição do ministro e, em sua maioria, afirmam que haverá impacto negativo para o país em termos de credibilidade e imagem junto a mercados internacionais.

Elena Landau: ‘É uma forma debochada, ridícula’ de tratar FMI
A economista Elena Landau, ex-diretora de Privatizações do BNDES, critica as falas de Guedes, que na última quarta-feira disse a uma plateia de empresários que estava “dispensando” o órgão do país.

“A maneira pela qual o ministro da economia trata um órgão da importância do FMI é mais uma mancha na imagem do Brasil frente ao mundo. É uma forma debochada, ridícula”, diz Landau.

A economista também condena as declarações do ministro sobre o ex-presidente do Banco Central Ilan Goldfajn, que em janeiro assumirá o cargo de diretor para o Hemisfério Ocidental do FMI.

“Ao falar do Fundo, Guedes ataca o ex-presidente do Banco Central Ilan Goldfajn, que ganhou por dois anos seguidos como melhor presidente de Banco Central do mundo. Isso mostra mais uma vez a mesquinhez do ministro da Economia, agora frente a um profissional que teve sucesso absoluto no combate da inflação”, afirma Landau.

A economista se refere ao prêmio Central Banker of The Year, concedido pelo jornal Financial Times a Goldfajn.

O ex-presidente do BC tem afirmado em entrevistas e eventos recentes que prevê uma recessão para o país no próximo ano e que os investidores estrangeiros já fugiram do país.

Arminio espera reconsideração de ambos os lados
Landau ressalta, ainda, que o Brasil não resolveu seus problemas fiscais e que, embora Guedes mostre contrariedade quanto às previsões traçadas pelo FMI para a economia brasileira e não concretizadas, as estimativas do ministro também se mostraram equivocadas.

“Guedes criticou a qualidade das previsões econômicas do órgão, mas ele é a última pessoa no país que deveria criticar quaisquer previsões. Ele prometeu R$ 1 trilhão em privatizações e não entregou, previu uma recuperação econômica em V e inflação controlada. É a pessoa que mais erra projeção”, conclui.

Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos, afirmou ao GLOBO esperar que o governo e o FMI “se entendam e voltem atrás” da decisão de encerrar o escritório.
Schwartsman: ‘Atitude mostra imaturidade e despreparo’
Para Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Relações Internacionais do Banco Central do Brasil, não há repercussão econômica com o anúncio.

“A atitude do ministro mostra imaturidade e despreparo, mas o Brasil não precisa (economicamente) do Fundo nem o Fundo precisa do país, mesmo ministros ruins, como Guido Mantega, mantiveram uma boa relação com a entidade”, diz ele.

Para Schwartsman, a reação de Guedes pode ter sido desencadeada por um desconforto com o fato de Goldfajn ter sido convidado para ser diretor do FMI.

“O ministro Guedes tem um problema para lidar com críticas, ele não é acostumado a ouvir outra pessoa que não a si próprio, qualquer um que tenha se reunido com ele sabe que ele faz monólogo, é impermeável à opinião alheia”, diz Schwartsman.

Ele continua:

“A reação dele (contra o FMI) foi aparentemente motivada pelos comentários do Ilan, que está indo para o FMI convidado para ser diretor da entidade para o Hemisfério Ocidental, cargo mais alto que qualquer representante brasileiro já tenha atingido na instituição. Guedes tem problema para lidar com isso.”

Schwartsman também considerou impróprias as críticas do ministro a projeções do FMI, já que Guedes também incorre com frequência em previsões frustradas:

“Guedes está brigando para ter o monopólio das previsões erradas. Em agosto ele dizia que a economia estava decolando e os dados do IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central-Brasil) mostram que a economia afundou. Vi um comentário nas redes sociais que é interessante. Não dá para menosprezar Guedes: ele conseguiu em três anos o que o PSTU está tentando desde a fundação, expulsar o FMI.”

Sandro Cabral: ‘Amplifica e reforça o isolamento internacional do país’
Para Sandro Cabral, professor do Insper, a saída do FMI é péssima e danifica ainda mais a imagem internacional do país.

“O sinal que o Fundo dá quando fecha o escritório no Brasil é muito ruim, amplifica e reforça o isolamento internacional do país e pode prejudicar grandes exportadores e empresas que busquem captar dinheiro no exterior”, ressalta. Para op especialista, o discurso do ministro não leva em conta a repercussão negativa do fato.

Marcelo Neri: ‘O problema não está no FMI, e sim na economia brasileira’
Marcelo Neri, professor da FGV, também avalia que as rusgas entre o governo e a instituição prejudicam a credibilidade internacional do Brasil.

“É um problema parecido ao que temos com a PEC dos Precatórios, afeta a credibilidade. Ter presença local de um órgão como o FMI, que acompanha as contas dos países ajuda a dar alguma credibilidade. Já a saída, da forma como foi, reflete um problema de relacionamento e tem uma consequência negativa”, afirma.

As previsões econômicas do FMI para o Brasil, segundo Neri, estão em linha com as do mercado.

“O ministro está incomodado com as projeções do ano passado, mas as de 2021 e 2022 são muito ruins, de inflação e desemprego altos. Não são apenas as projeções do FMI, mas sim as do mercado de maneira geral. O problema não está no FMI, e sim na economia brasileira”, ressalta.

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