Fuga de 75 presos custou mais de R$ 6 milhões ao PCC, diz polícia paraguaia

Na madrugada de 19 de janeiro, 75 homens fugiram do presídio de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, em uma ação que envolveu um túnel e até a saída de parte dos presos pela porta da frente.

Segundo policiais nacionais entrevistados pelo UOL, o custo da fuga está estimado em US$ 1,5 milhão (mais de R$ 6 milhões), subdividido entre a propina que teria sido paga pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) a agentes penitenciários e valores gastos com a logística da fuga — escavação do túnel e transporte.
Na fronteira da cidade paraguaia com Ponta Porã (MS), após a fuga, três caminhonetes foram queimadas.

Ao todo, o governo paraguaio afirma que fugiram 40 brasileiros e 35 paraguaios. Um 36º preso paraguaio que tentou fugir foi pego ainda dentro de um túnel que ligava uma das celas até o lado de fora do presídio.

A saída desse túnel fica quase debaixo de uma guarita da muralha e entre outros dois postos de segurança. Mas nada disso impediu a fuga em massa.
Oficialmente, a polícia não confirma nem refuta os cálculos. Mas investigadores brasileiros e paraguaios, sob anonimato, os validam. Há, atualmente, uma “lei do silêncio” entre as autoridades envolvidas na apuração.

Policiais paraguaios dizem ter a certeza de que integrantes importantes do PCC utilizaram os carros queimados para chegar ao Brasil. Até esta publicação, 11 dos fugitivos haviam sido recapturados.

Um dos principais suspeitos de ter financiado e organizado a fuga é o brasileiro David Timóteo Ferreira, 36, na lista dos fugitivos. Quando estava no Brasil, segundo o MP (Ministério Público), ele financiava, com armas e dinheiro, grandes assaltos a empresas de valores.

Feliciano Martinez, chefe da divisão de investigações da polícia paraguaia em Pedro Juan Caballero, explicou à reportagem que, na madrugada da fuga, recebeu um alerta sobre o assunto e, imediatamente, se iniciaram os trabalhos para tentar resgatar os fugitivos.

“Era um pavilhão de membros do PCC e de paraguaios que haviam sido batizados pelo PCC”, afirmou.
“Estamos tentando controlar as rotas de fuga para as saídas para Ponta Porã ou para Assunção. Tivemos uma resposta, que foi a recuperação de 11 em 10 dias. Agora se inicia a investigação, com as polícias Civil, Militar e Federal brasileiras, com quem já tivemos muitas reuniões. Estamos compartilhando informações e acredito que vamos ter uma resposta positiva em breve”, complementou Martinez.

Roberto Alfonso, chefe da Polícia Nacional em Pedro Juan Caballero, disse à reportagem que tudo o que é possível está sendo feito para recuperar os fugitivos.

“Podíamos ter mais policiais na fronteira. Por isso, estamos recebendo reforço de Assunção, com pessoal tático e técnico. Trata-se de uma operação grande. Nosso trabalho é recuperar essa gente e colocá-la à disposição da Justiça. Com o correr do tempo, creio que vamos conseguir recapturá-los. Não digo 100%, mas o máximo possível”, afirmou.

A reportagem tentou acompanhar, por três dias, o trabalho da polícia paraguaia na fronteira. Nos dois primeiros dias, os policiais não deixaram o batalhão porque chovia; no terceiro, todo o efetivo estava alocado na prefeitura de Pedro Juan Caballero, onde ocorria uma manifestação.

Para o ministro do Interior paraguaio, Euclides Acevedo, não houve fuga, mas liberação de presos. “A cumplicidade pessoal dos agentes não é só verossímil, como é quase evidente”, afirmou.

Em dezembro, o governo paraguaio já havia identificado um suposto plano de fuga de membros do PCC no presídio da cidade. Nada, no entanto, foi feito. Toda a equipe de carceragem foi mudada após a saída dos 75 presos. A reportagem entrevistou integrantes que estão trabalhando atualmente no local. Para eles, para além de dinheiro, havia medo no local.
PCC quer se fortalecer (mais) na fronteira
O PCC começou a temer perder um de seus principais locais de transição de drogas e armas quando, em outubro passado, a Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) do Paraguai prendeu Levi Adriani Felicio e seu braço direito, Marcio Gayoso. Os dois forneciam o que facções brasileiras pediam na região.

Para policiais e promotores paraguaios, a queda de Levi representou ao PCC uma perda representativa na província de Amambay, que tem Pedro Juan Caballero como capital. Levi era tido como um sócio importante da facção criminosa paulista, e seu irmão, Rodrigo Felicio, o Tico, era um dos chefes do PCC em Piracicaba, no interior de São Paulo.
Sem um homem com cargo importante dentro da facção na região, David Timoteo Ferreira e Osvaldo Rodrigo Pagiotto seriam os escolhidos para liderar a região ou reorganizar a facção. Para tanto, planejaram, junto à cúpula do grupo, a fuga. Eles conseguiram mudar de pavilhão e, depois, ameaçar de morte e oferecer propina a carcereiros.

Além dos dois, outros 20 brasileiros que estavam presos são tidos pelas autoridades locais como chefes da facção paulista. Ao todo, 40 brasileiros escaparam. A principal suspeita é de que todos eles tenham saído pela porta da frente da penitenciária. Outros 35 paraguaios deixaram a prisão através de um túnel.

Pedro Juan Caballero é um território extremamente estratégico para o PCC. Como o Paraguai é um dos principais produtores de maconha e tem facilidade para a entrada e saída da cocaína que chega via Peru, Colômbia e Bolívia, Pedro Juan Caballero é local de passagem para o tráfico internacional de drogas e de armas.

Uma vez no território nacional, a droga do PCC é enviada aos principais portos do país e, de lá, exportada para Europa, África e Ásia dentro de navios, o que é tido como a principal fonte de renda da facção.

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