Eleições 2022: ‘terceira via’ vai emplacar?

Faltando pouco menos de oito meses para o primeiro turno das eleições 2022, as pesquisas de intenção de voto seguem mostrando a tendência de um segundo turno entre o ex-presidente Lula e o atual chefe do Executivo, Jair Bolsonaro (PL). O quadro mostra que, até o momento, a chamada ‘terceira via’ ainda não saiu do papel; ou, pelo menos, não emplacou.

De acordo com a pesquisa CNT/MDA divulgada na segunda-feira (22), Lula (PT) manteve sua força e Bolsonaro voltou a crescer, enquanto Moro (Podemos), que oscilou negativamente de 8,9% para 6,4%, Ciro Gomes (PDT), que cresceu de 4,9% para 6,7% e Doria (PSDB), 1,8%, novamente não conseguiram chegar aos dois dígitos de intenção de voto. Ainda como postulantes ao cargo de presidente, a ‘terceira via’ tem nomes menos cotados como André Janones (Avante), 1,5%; Simone Tebet (MDB), 0,6%; Felipe d’Avila (Novo), e Rodrigo Pacheco (PSD), 0,3%.

Por que candidaturas alternativas não emplacam?

Para Rodrigo Prando, cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a ‘terceira via’ não existe de fato, já que o cenário é pulverizado e os pré-candidatos que se opõem a Lula e Bolsonaro jamais chegaram perto de uma unificação de candidaturas.

“O que nós temos, além de Bolsonaro e Lula, são outros candidatos que, de forma legítima, postulam a presidência da República e, de certa maneira, fragmentam essa chamada terceira via — que é muito mais uma construção abstrata do que um movimento concreto. A grande questão é que uma ‘frente ampla’ deveria ter uma candidatura única”, analisa.

Desde que a reeleição foi possibilitada no Brasil, todos os presidentes foram reeleitos (FHC, Lula e Dilma). Dessa forma, devido ao aparato orçamentário e a sustentação do Congresso para governar e propor programas sociais que se transformem em votos, Bolsonaro naturalmente é um candidato forte; somado a isso, Lula é alguém que esteve presente, direta ou indiretamente, em eleições presidenciais desde 1989. Logo, é difícil para as candidaturas alternativas mostrarem uma imagem mais consolidada do que os dois líderes das pesquisas.

“As propostas dos pré-candidatos ainda não estão claras. A gente tem um delineamento maior sobre Lula — que foi um presidente que atuou fortemente no campo social e que, por meio de seus programas promoveu uma diminuição da extrema pobreza e um incremento da classe média — e Bolsonaro, que se propôs como liberal na economia, reformista e conservador nos costumes, mas quando muito conseguiu ser conservador, embora sofra resistências enormes em alguns setores da sociedade. Então pelo menos essas duas marcas estão sendo comunicadas e já têm alguma construção”, analisa.

Segundo Rodrigo Prando, por ser relativamente desconhecido no restante do Brasil e por ter como trunfo a defesa da vacinação e os bons números econômicos de São Paulo, Doria é o presidenciável da ‘terceira via’ com mais espaço para crescer.

Ciro, apesar da experiência administrativa, disputa um espaço da esquerda/centro-esquerda em que o Lula é praticamente hegemônico, o que explica a dificuldade do pedetista em ultrapassar a barreira dos 10% nas pesquisas.

Já Moro, segundo Rodrigo Prando, tem dificuldade de falar para além de uma perspectiva jurídica, de combate a corrupção, de segurança pública.

“Ele tem consultado figuras intelectuais, economistas e formadores de opinião a fim de amplificar o discurso para além dos temas que são presentes na Lava Jato, que é o que deu a ele projeção nacional como algoz do Lula e de combate a corrupção, mas sua atuação como juíz dos processos da força-tarefa também acabou tendo como consequência a anulação das condenações do ex-presidente Lula quando o STF considerou-o como suspeito.

“Talvez, quando a campanha se iniciar, os candidatos ponham seus projetos de forma mais clara para que a população tenha acesso. Nesse momento, a população está referendando os nomes que são colocados. Tanto é que, em pesquisas não estimuladas, cerca de 40% da população alega ainda não ter candidato definido. Então, sempre tem espaço candidaturas crescerem, a política não é dada de antemão. No entanto, será uma luta muito difícil superar as intenções de voto de Lula e Bolsonaro.”

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