David Uip sobre covid-19: “Fui vítima de massacre e politização”

O médico infectologista e coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo, David Uip, afirmou nesta quinta-feira (9) que foi vítima de um massacre nos últimos dias por não dizer o medicamento usado em seu tratamento contra a covid-19. “Fui vítima de uma forma cruel. Eu só queria ajudar. Houve um massacre, com invasão de meus dados e prontuários. Minha família está incomodada. O que eu fiz de errado? O inimigo é o vírus. Essa politização e ataques pessoais não têm o menor sentido”.

Ele disse que não falar sobre o tratamento “não é quebra de transparência. O sigilo que me impus é para proteção da sociedade. Quero evitar uma corrida desnecessária para as farmácias”.

Uip destacou que não é contra o uso da cloroquina ou hidroxicloroquina: “Não há evidências científicas ainda. Nunca me pus contra o uso. Tem outras drogas sendo testadas. Quero diminuir o número de mortos”. Ele ressaltou, no entanto, que hoje o paciente que está internado com a infecção precisa cooncordar com o uso do medicamento, uma vez que há diversos efeitos colaterais já sabidos, como problemas na visão, hepáticos e cardiológicos.

Sobre o uso do plasma de pacientes curados da covid-19 em infectados, Uip lamentou não poder ser doador: “Isso está me incomodando porque não poderei doar por causa dos meus stents (tubo colocado no interior de uma artéria para evitar obstrução dos vasos sanguíneos)”.

Segundo ele, o Brasil está no momento de ascensão de novos casos de coronavírus. “Estamos no rabo crescente de uma curva. Ou enfrentamos um Everest ou uma montanha menos íngreme. Caminhamos por tendências: estamos entre a Coreia e a China, com pico nos Estados Unidos”, comparou.

O infectologista informou que o distanciamento social evitou que o número de infectados fosse 10 vezes maior. Ele revelou que a primeira onda aconteceu na vinda do Carnaval de paulistas que estavam viajando, o fez uma grande pressão na rede privada porque atingiu a classe mais alta.

Hoje 80 milhões de celulares são mapeados. “Estamos com um índice de distanciamento social de 52%, isso é pouco. Temos que atingir o índice de 70%, mas isso é muito difícil. Sabemos quem está se movimentando. A região metropolitana está mais envolvida, mas o interior, com menos casos da doença, parece que se envolveu menos no distanciamento”, destacou o médico.

Uip defendeu o aumento do número de testes para covid-19: “Estamos testando muito pouco no país, na verdade só os mais graves, por isso a letalidade pela doença é alta, em torno de 5%. É preciso aumentar a testagem, mas há limites de insumos e capacidade dos laboratórios”.

No dia 6, quando voltou à rotina de trabalho, Uip destacou como foi ficar em isolamento após diagnóstico da covid-19: “Tive que me reinventar, mais humilde e reconhecendo os limites da vida”. O médico foi afastado das atividades no dia 23 de março, quando testou positivo para a doença.

David Uip decidiu que, além de auxiliar o comitê de gerenciamento da crise do novo coronavírus, vai voltar a atender pacientes. “Não é brincadeira, aqueles que estão subestimando, desejo ardentemente que não adoeçam. É um sofrimento muito grande. Me senti muito mal, não consegui falar”, afirmou. “Estava extenuado”, afirmou.

A quarentena em São Paulo está mantida até o dia 22 de abril, com restrições impostas ao comércio e aos serviços não essenciais em todo o estado, para tentar impedir a disseminação do coronavírus.

Números da covid-19

O médico informou que 20% dos infectados precisarão do atendimento de média ou alta complexidade e 5% vão precisar de atendimento em UTI (Unidade de Terapia Intensiva). O índice de transmissibilidade verificado é de que um infectado passe para até três pessoas.

As preocupações são de que, com a chegada do período do inverno, somam-se outras doenças graves. Há um aumento no número de doenças respiratórias graves.

A covid-19 tem sintomas que os médicos não conheciam em outras doenças respiratórias, como perda de olfato e de gosto. A complicação do quadro ocorre do sétimo ao nono dia. “Torna-se uma pneumonia grave. É uma situação em que não sabemos quem vai ser infectado e quem não vai. Isso cria uma enorme expectativa. Não está claro quem vai se safar, quem não vai”, argumentou David Uip.

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