Com CPI, senado confirma independência e desafia Bolsonaro

Com a instalação iminente de uma comissão de inquérito para apurar o principal ponto fraco do governo Bolsonaro, a gestão federal da pandemia, o senado confirma a força de parlamentares desvinculados às ações e interesses do Planalto. A postura crítica ao governo e a capacidade de articulação destes senadores se acentuou com a saída de David Alcolumbre (DEM/AP) da presidência da Casa e com a ascensão de um grupo mais independente a cargos chave ou funções de influência na Casa.

Mesmo no cenário que antecede a indicação formal pelos partidos, já se sabe que a CPI da Covid terá maioria de senadores notadamente críticos ou sem atrelamento político ao governo, restando ao presidente ser defendido por 4 dos 11 titulares, além dos líderes governistas, que tem voz garantida no colegiado. A situação torna possível que emedebistas Renan Calheiros (MDB/AL) e Eduardo Braga (MDB/AM) pleiteiem, com chances de sucesso, a relatoria – posto chave de qualquer CPI. Um cenário impensável em qualquer dos mandatos presidenciais anteriores, em que pelo menos um dos dois cargos de comando – presidência ou relatoria – era assumido por representante da base governista e a maioria das cadeiras, por senadores aliados.

Ao contrário da Câmara, o Centrão, principal força estabilizadora desta segunda metade do mandato de Bolsonaro, tem no Senado ingerência muito menor. A Casa, ainda hoje marcada pela presença de ex-governadores, caciques com forte poder regional e nomes tradicionais da política nacional, desafia o poder de aglutinação do Executivo. A resposta dos líderes de Bolsonaro ao movimento pró-CPI foi vista como desarticulada, ineficiente e até “pueril”- ante à proposta do líder Eduardo Gomes (MDB/TO), de que a comissão só pudesse funcionar quando todos os participantes estivessem vacinados.

Com a instalação da comissão de inquérito, a oposição a Bolsonaro ganha palanque certeiro, ainda que eventualmente não-presencial, para explorar falhas e expor fragilidades de um ministério da Saúde que está no seu quarto titular. Já as primeiras manifestações do presidente Bolsonaro, que atacou o STF e atuou para alterar o foco central da investigação, sinalizam para o poder desestabilizador da CPI.

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