Casos de dengue em SP triplicam neste ano e já chegam a 7.203

Os casos confirmados de dengue explodiram na cidade de São Paulo neste ano e o número deles já é três vezes maior do que o registrado em 2020. De acordo com dados da Secretaria Municipal de Saúde, até 16 de novembro foram 7.203 ocorrências ante 2.026 em todo o ano passado.

“O número de 2020 todo representa 28% do total de 2021. Trata-se de um aumento importante em relação ao ano anterior. Temos proximidade com a Baixada Santista, e a alta do fluxo de viagens traz mais risco para a capital”, afirma Melissa Palmieri, que é médica da Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde.

Em 2019, a situação era ainda pior, com 16.966 casos confirmados da doença e três mortes. Em 2020 houve um óbito por dengue e, neste ano, até agora, nenhum.

Outro motivo de alerta é o crescimento dos casos de chikungunya, doença que também pode ser transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo transmissor da dengue. São notificações de casos importados (vindos de outras cidades) e autóctones (natural da região).

“Em 2019 foram 46 casos importados e dois autóctones; em 2020, 17 importados e um autóctone; e, neste ano, já são 79 importados e 63 autóctones. É raro o mosquito transmitir dengue e chikungunya ao mesmo tempo, mas é possível”, detalha a médica.

“Estava horrível viver”
Camilla Jorge tem 30 anos, é jornalista e hoje mora em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Quando vivia com a mãe, na zona norte da capital, ela foi picada pelo Aedes e ficou doente. Não só ela, mas também a avó, o que preocupou ainda mais a família durante um surto de dengue na cidade.

“Lembro de ficar muito mal e perdi uma viagem para a Chapada dos Veadeiros (GO). Era um feriado. Eu não conseguia nem levantar o celular para ver foto nem tinha forças para apertar o sim e continuar assistindo à Netflix”, conta.

Camilla ia ao hospital para fazer a contagem de plaquetas e encontrava a unidade lotada. “Tinha uma mulher na espera que queria passar na frente. A enfermeira disse a ela: ‘Você acha que está péssima, olha aquela ali na parede’, e era eu, encostada. Tenho uma vaga ideia do que estava acontecendo porque estava horrível viver”, lembra.

Ainda hoje ela toma cuidados para evitar ser novamente picada: “Já ouvi dizer que em uma segunda vez os sintomas podem ser piores”. Ainda mais agora que mora em uma região com mais mata e insetos. Além de usar uma espécie de veneno contra o mosquito, tenta não deixar água parada e passa repelente no corpo, principalmente durante o dia.

Sintomas e grupos de risco
Os sintomas da dengue podem ser confundidos com os de outras doenças, daí a importância de buscar ajuda profissional em uma unidade de saúde. Entre eles estão febre alta com início súbito, dores de cabeça, no corpo, atrás dos olhos e nas articulações, manchas vermelhas na pele, náuseas, vômitos, cansaço extremo, tontura e perda de apetite.

A doença pode ser mais grave em pacientes de grupo de risco como gestantes e pessoas com comorbidades (diabetes, doença renal, entre outras).

Na triagem, o enfermeiro vai verificar a pressão arterial da pessoa, se há sangramento ou outros sinais como desidratação e fazer o exame de sangue. É feito também o teste rápido.

“O tratamento depende da classificação de risco. Ir à UBS reduz de 20% para 1% a mortalidade. É importante reportar aos profissionais de saúde se há casos de dengue na vizinhança. Se der positivo o teste, vai receber a carteira de arbovirose. Deve tomar água e monitorar os sinais de alerta. Entre o terceiro e o quinta dias, a febre desaparece, mas nem sempre isso é bom sinal. O paciente pode desenvolver sangramento e deve voltar à UBS”, enfatiza a médica Melissa Palmieri.

A dengue tem quatro tipos de vírus em circulação, o sorotipo 1 é o mais frequente. Mesmo as pessoas já infectadas podem desenvolver os outros tipos, e é fato que o quadro pode se agravar em caso de uma nova picada.

“Quem já teve dengue pode ter um desfecho mais grave em uma segunda ocorrência, por isso precisa ser monitorado. A dengue tem sorotipos diferentes, e ter a doença não causa imunidade contra os outros tipos. Tem que fazer exames para identificar indícios de agravamento”, alerta a especialista da Secretaria de Saúde de São Paulo.

Afeta toda a cidade
Os distritos de São Paulo com maior transmissão de dengue em 2021, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, são Cachoeirinha e Brasilândia, na zona norte, Itaquera e Cidade Tiradentes, na zona leste, e Jardim São Luís, na zona sul. No entanto, como o mosquito voa, o risco existe em qualquer localidade, até mesmo em áreas nobres.

“Nesses locais de maior concentração populacional você verá mais casos, com alta transmissão larvária. O município está em alerta. Não podemos menosprezar que não haja repercussão em outros bairros de São Paulo. Áreas nobres têm outros riscos, como piscinas abandonadas. Na periferia o problema é a caixa-d’água”, revela a médica.

A prevenção é a melhor forma de evitar a propagação da doença, eliminando criadouros do mosquito em casas e terrenos baldios. Para que os cuidados sejam efetivos, tanto o poder público quanto os moradores devem fazer a sua parte.

“Antes das férias, aumenta a preocupação porque as pessoas vão viajar e deixam recipientes com água limpa parada em casa. Na pandemia, as pessoas ficavam mais nas residências e estavam mais vigilantes com criadouros. Agora não mais. É um trabalho simples, de vigilância”, explica a especialista.

Medidas que devem ser adotadas
• Verificar as caixas-d’água. Elas precisam estar tampadas e com vedação. Atenção no armazenamento de água durante a crise hídrica;

• Calhas, lajes e telhas devem estar limpas e desentupidas;

• Muros que tenham cacos de vidro em cima podem acumular água;

• Revisar pontos de acúmulo de água como garrafas, baldes e pneus;

• Jogar fora até mesmo tampas de refrigerante e recipientes que possam ter água parada;

• Não deixar água parada nos pratos das plantas.

O Aedes aegypt tem hábitos diurnos, por isso a recomendação é usar repelente e roupas claras que possam identificar a circulação do mosquito.

Quem transmite a doença é a fêmea, que se alimenta de sangue e precisa dele para botar os ovos. Segundo especialistas, em uma só viagem ela pode picar até oito pessoas.

Fumacê
A prefeitura realiza quatro vezes por ano a avaliação larvária nos distritos. Em geral, ela ocorre nos meses de janeiro, maio, junho e outubro. É um trabalho amostral em imóveis para analisar o nível de infestação. Também são feitas vistorias mensais em pontos estratégicos já recorrentes, como cemitérios, para eliminar criadouros.

O chamado fumacê ou nebulização é uma atividade que ocorre quando há confirmação de casos na região. Enquanto existe apenas suspeita, os agentes de saúde fazem as visitas casa a casa para o bloqueio de criadouros e alertar a população em ações educativas.

“Os agentes de saúde enfrentam dificuldades para entrar nas casas. Agentes comunitários nos auxiliam. A pandemia também dificulta, mas é o momento de estarmos juntos contra a dengue e a chikungunya”, ressalta Melissa Palmieri.

Uma vez confirmado o diagnóstico, é aplicado um adulticida na região para eliminar os mosquitos vetores por meio de maquinário nas costas do agente de saúde ou em veículos.

A zika também é transmitida pelo Aedes aegypt, mas não há preocupação neste momento com a doença na capital paulista.

“Não é só Covid-19. Também temos que estar preocupados com dengue e chikungunya. Tirar uns minutos toda semana para olhar a casa e a vizinhança e evitar criadouros. Prevenção é um componente importantíssimo antes das férias e viagens e também durante a restrição hídrica. Não podemos sobrecarregar ainda mais o serviço de saúde. A chikungunya pode deixar lesões crônicas em pacientes”, conclui a médica da Vigilância Epidemiológica.

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