Bolsonaro cita emprego de novo, mas muda tom sobre vírus: ‘É uma realidade’.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em pronunciamento transmitido hoje em rede nacional, voltou a citar a preocupação que tem com emprego dos brasileiros em época de pandemia, mas mudou o tom e admitiu que o coronavírus “é uma realidade”.

“O vírus é uma realidade. Ainda não existe vacina contra ele ou remédio com eficiência cientificamente aprovada, apesar da hidroxicloroquina parecer bastante eficaz”, disse Bolsonaro.

Em seu pronunciamento, que durou aproximadamente oito minutos, o presidente falou novamente sobre o que considera ser sua missão: salvar vidas sem deixar para trás os empregos.

“Todos nós temos que evitar ao máximo qualquer perda de vida humana. Como disse o diretor-geral da OMS: ‘todo indivíduo importa’. Ao mesmo tempo, devemos evitar a destruição de empregos, que já vem trazendo muito sofrimento para os trabalhadores brasileiros”, disse.

Por um lado, temos que ter cautela e precaução com todos, principalmente com mais idosos e portadores de doenças. Por outro, temos que combater o desemprego, que cresce rapidamente em especial entre os mais pobres
presidente Jair Bolsonaro

Diferentemente do pronunciamento anterior, quando chegou a usar o termo “gripezinha” e disse que não ficaria doente por ter “histórico de atleta”, Bolsonaro em nenhum momento minimizou a gravidade da pandemia e, apesar de falar que se preocupa com os autônomos, não defendeu abertamente o isolamento parcial, como vinha fazendo.

Segundo um estudo feito por nos Estados Unidos e na Alemanha, o fim do isolamento não impediria a recessão econômica. Para os pesquisadores, o confinamento de fato aumenta o impacto na recessão econômica, mas tem o potencial de evitar 500 mil mortes só nos Estados Unidos.

O chefe do Executivo ainda listou medidas recomendadas pelo Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS), e foi mais comedido ao falar sobre a cloroquina e uma possível cura para o coronavírus.

“Determinei ao nosso ministro da Saúde [Henrique Mandetta] que não poupasse esforços, apoiando através do SUS todos os estados do Brasil, aumentando a capacidade da rede de saúde e preparando-a para o combate à pandemia”, afirmou Bolsonaro.

Bolsonaro oculta citações do diretor da OMS
A exemplo do que ocorreu na manhã de hoje, em frente ao Palácio do Alvorada, Bolsonaro voltou a ocultar trechos do pronunciamento do diretor-presidente da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, que lembrou a necessidade que muitos trabalhadores têm de deixar o lar para “ganhar o pão”.

No entanto, Ghebreyesus também cobrou dos governos a responsabilidade de cuidar da parte econômica para que trabalhadores possam ficar em casa durante o isolamento social. O acréscimo não foi feito por Bolsonaro em seu pronunciamento na noite de hoje.

“Não me valho dessas palavras para negar a importância das medidas de prevenção”, afirmou no pronunciamento o presidente, que declarou estar pensando nos “mais vulneráveis” e citou trabalhadores autônomos, camelôs, diaristas e caminhoneiros como alvos de sua preocupação “por toda a vida pública”.

“Nesse sentido, o senhor Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, disse saber que: ‘muitas pessoas de fato têm que trabalhar todos os dias para ganhar seu pão diário e que os governos têm que levar essa população em conta’. Continua ainda: ‘se fecharmos ou limitarmos movimentações, o que acontecerá com essas pessoas, que têm que trabalhar todos os dias e que têm que ganhar o pão de cada dia todos os dias?’

Bolsonaro também ocultou que o próprio diretor da OMS utilizou o Twitter, nesta tarde, para fornecer uma resposta direta, ainda que sem citar nomes.

Ele escreveu que pessoas “sem salários regulares ou poupanças merecem políticas sociais que garantam dignidade e permitam a elas adotar medidas contra a covid-19 seguindo orientações de saúde da OMS e de autoridades locais”.

Ainda, o diretor da OMS afirmou que, por ter crescido em meio à pobreza, ele entende a situação. “Peço aos países que desenvolvam políticas de proteção econômica a quem não pode receber ou mesmo trabalhar durante a pandemia de covid-19. Solidariedade.”

Hoje o Brasil bateu o recorde de mortes em 24 horas. Foram 42 mortes de ontem para hoje, totalizando 201. Ontem o país já tinha batido um recorde, com 23 mortes. No total, são 5.717 casos oficiais confirmados no país — 1.138 diagnósticos confirmados em um dia — e 3,5% de letalidade, informou o ministério.

Pacto nacional
Também diferentemente do que fizera no pronunciamento anterior, Bolsonaro não atacou as medidas dos governadores que têm decretado quarentena e isolamento nos estados. Pelo contrário, o presidente afirmou que é necessário fazer um pacto nacional que reúna todos os entes da federação.

“Agradeço e reafirmo a importância da colaboração e a necessária união de todos, num grande pacto pela preservação da vida e dos empregos: Parlamento, Judiciário, governadores, prefeitos e sociedade”, listou o presidente.

Na semana passada, Bolsonaro acusou os governadores que estão implantando a quarentena de estarem tentando desestimular os investimentos no país. Ele citou nominalmente Wilson Witzel (PSC), do Rio de Janeiro, e chegou a discutir com João Doria (PSDB), de São Paulo.

Outros personagens da política nacional, como os presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia (DEM) e Davi Alcolumbre (DEM), respectivamente, criticaram o pronunciamento anterior de Bolsonaro.

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