Após ataque de Bolsonaro, Doria sobe o tom e rebate: ‘pare de fazer política em meio a um país que choras mortes e infectados’

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), endureceu o discurso contra o presidente Jair Bolsonaro: “Pare com essa política da perversidade. Pare de fazer política em meio a um país que chora mortes e infectados”.

Doria abriu a coletiva de imprensa desta quarta-feira (29), no Palácio dos Bandeirantes, com uma dura resposta a Bolsonaro, que nesta mesma manhã atribuiu a governadores e prefeitos a responsabilidade pelas mortes por Covid-19 no país.

Bolsonaro citou nominalmente o governador de São Paulo e o prefeito da capital, Bruno Covas (PSDB), ambos defensores do isolamento social, medida questionada por Bolsonaro.

Doria ainda citou a resposta que o presidente deu ontem (terça-feira), em Brasília, ao ser perguntado sobre o que achava de o Brasil ter ultrapassado a China no número de mortes pela Covid-19. Disse Bolsonaro: “E daí? Quer que eu faça o quê?”.

“Fazer aquilo que o senhor não fez, começando por respeitar os brasileiros que o elegeram, e os que não o elegeram. Respeitando pais, mães, avós, parentes e amigos que perderam as suas vidas no Brasil até ontem, pelo coronavírus”, disse o governador.

A mensagem dirigida a Bolsonaro, com quem Doria vem trocando farpas desde o início da pandemia, durou seis minutos e teve tom de desabafo.

“[Mortes por] coronavírus, que o senhor classificou como uma gripezinha, um resfriadinho, e que minimizou dizendo que não era importante e que não era grave. Que o senhor respeite o luto de mais de 5.000 famílias que perderam seus entes queridos e que hoje estão sepultados. Praticamente nenhum parente pode acompanhar o sepultamento.”

Doria convidou Bolsonaro a visitar hospitais em São Paulo para “ver as pessoas agonizando nos leitos e a preocupação dos profissionais de saúde de São Paulo e de toda a parte do Brasil com aquelas pessoas que podem ir a óbito”.

“Se não quiser visitar São Paulo, por medo ou qualquer outra razão, vá ver o colapso da saúde em Manaus. Vá ajudar o governador do estado do Amazonas e o prefeito da cidade de Manaus, no mínimo sendo solidário e estando presente para ver a realidade do seu país, não a sua realidade do estande de tiros onde o senhor foi ontem celebrar, enquanto nós choramos mortes de brasileiros”, afirmou o governador.

Doria pediu a Bolsonaro que “saia da sua bolha, dessa sua fábula, do seu mundinho de ódio” e que “não frequente apenas o seu gabinete de ódio”.

“Percorra hospitais, seja solidário com a realidade do seu país, com os brasileiros que perderam suas vidas e tem os seus familiares chorando mortos e com outros que choram aqueles que estão enfermos em hospitais públicos e privados em todo o país.”

No final, ironizou a prática de Bolsonaro de chamar os filhos por números.

“O senhor que gosta de tratar tudo como números, e acha que a vida é um número, eu não acho. Nem meus filhos são tratados por número. Meus filhos são tratados pelo nome, com carinho, amor e afeto. O mesmo carinho que dedico na minha função como governador, ao lado de dezenas, centenas, milhares de pessoas que em São Paulo e no Brasil estão trabalhando para salvar vidas”.

“A vida não é um número, é sentimento, e espero que o senhor possa resgatar o seu para ter um olhar de compaixão pelo seu país e pelos brasileiros.”

No final da coletiva, Doria voltou a mencionar Bolsonaro.

“Presidente, ao invés de treinar tiros, em horário de expediente de trabalho, treine compaixão. Pegue seu avião e visite hospital público de Manaus. Fale com pais, parentes e amigos das pessoas em tratamento, e visite um dos cemitérios de Manaus, e dialogue com o prefeito e o governador. Certamente, o senhor será melhor reconhecido pelo povo brasileiro. Ao invés de treinar tiros, treine compaixão”.

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