Altas da Selic causam rombo que pagaria Auxílio Brasil por três anos

A trajetória de elevação que aumentou a taxa básica de juros da economia brasileira na tentativa de conter o avanço inflação vai sobrecarregar a DBGG (Dívida Bruta do Governo Geral) em mais de R$ 250 bilhões.

O valor é suficiente para pagar as parcelas de R$ 400 do Auxílio Brasil, programa lançado pelo governo para substituir o Bolsa Família, a 17 milhões de famílias brasileiras pelos próximos 36 meses, período equivalente a três anos.

O cálculo leva em conta que, a cada aumento de 1 ponto percentual dos juros básicos, o rombo nos cofres públicos fica cerca de R$ 35 bilhões maior. O ciclo de alta da Selic, iniciado em março, elevou 7,25 pontos percentuais a taxa básica (de 2% ao ano para 9,25% ao ano).

Tal impacto é motivado pela composição da dívida pública brasileira, que superou R$ 5,373 trilhões em outubro, de acordo com dados mais recentes do Tesouro Nacional. O valor é 7,26% superior ao estoque de dezembro do ano passado (R$ 5,010 trilhões), quando a Selic figurava no menor patamar da história.

Dentro do estoque total, os títulos atrelados à Selic correspondem a 36% do endividamento, o equivalente a R$ 1,938 trilhão, volume 11,4% superior ao registrado ao fim de 2021. Os títulos prefixados (28,85%) e os atrelados à inflação (29,3%) também aparecem na composição da dívida pública nacional.

Rachel de Sá, chefe de economia da Rico Investimentos, afirma que o forte impacto das movimentações do BC (Banco Central) nas contas públicas ocorre justamente porque o endividamento brasileiro é “selicado”, já que os títulos atrelados à taxa básica correspondem a mais de um terço dos recursos utilizados pelo governo para financiar suas atividades.

“Além disso, é muito maior o impacto, porque todos os outros títulos, que são pré-fixados, têm taxas pedidas pelo mercado. Quanto maior é a percepção do risco fiscal, mais os investidores vão pedir como prêmio para financiar o país”, explica Rachel. Segundo ela, as altas da Selic são também motivadas pelo avanço dos gastos governamentais, que puxam para cima os índices de preços para os consumidores finais.

Heloise Sanchez, economista da equipe de análise da Terra Investimentos, ressalta que as novas altas já sinalizadas para os próximos meses devem custar R$ 339 bilhões aos cofres públicos e afetar o desempenho futuro da economia. “A recuperação econômica do país fica cada vez mais distante, uma vez que para isso é necessário um cenário de dívida e juros baixos, atrelado ao crescimento do PIB”, avalia.

Para a chefe de economia da Rico Investimentos, o ideal seria a adoção de alguma forma de trazer mais previsibilidade para a oscilação da dívida pública, com títulos mais longos e menos pós-fixados. “Isso não é algo que o Tesouro consegue fazer sozinho, mas ele pode oferecer ao mercado. É o que eles têm feito, mas observamos leilões em que o Tesouro oferece os títulos e as taxas sobem, porque é como tentar um empréstimo na tentativa de pagar somente 1% de juros”, comenta Rachel.

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